Homenagem à Dra. Alice Mataruco
Meunière?
Todo-poderosos jovens Que desprezam os sentidos Acham que tudo podem, Que destemidos! Sem quaisquer defeitos Enxergam todos os dos outros Ignoram os tênues gozos Coitados, tão ignotos Ah! Pois há o inesperado. Tira o olhar do próprio umbigo Vem sem aviso sem recado Irritante, contumaz zumbido. Tal após estouro atômico Diáfano fica o ouvido Abafa-se, fico atônito Ah! o defeito, que temido. Nota-se agora o passarinho Toda palavra qualquer balbuciação Todo sentido pequeneninho Que catarse, que reflexão. Se podes ver, repara. Se podes comer, saboreie. Se podes tocar, não pára! Se podes falar, não se apeie. Se podes ouvir, sinta. Agora eu não olvido. Minha mãe dizia há muito Mais importante é o ouvido. Foi bem assim que me disse A minha Doutora Alice.
Escrito por Cambuinha às 22h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Cerveja Nacional é ruim?
Interessante o publicado hoje na FSP. Para refletir no fim de ano.
A cerveja: bebendo gato por lebre ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE
O BRASIL é o quarto maior produtor de cerveja, com pouco mais de 10 bilhões de litros por ano. A China é o maior de todos, com 35 bilhões, e os EUA são o segundo, com 24 bilhões. A Alemanha vem em terceiro, com uma produção apenas 5% maior que a brasileira. Segundo norma autorregulatória da indústria cervejeira alemã, a cerveja é composta única e exclusivamente por apenas três elementos, cevada, lúpulo e água, tendo como interveniente um fermento. Tradicionalmente, o termo malte designa única e precisamente a cevada germinada. O malte pode substituir a cevada total ou parcialmente. A malandragem começa aqui. Com frequência, lê-se em rótulos de cervejas a expressão "cereais maltados" ou simplesmente "malte", dissimulando assim a natureza do ingrediente principal na composição da bebida. Com a aplicação desse termo a qualquer cereal germinado, a indústria cervejeira pode optar por cereais mais baratos, ocultando essa opção. O poder da indústria cervejeira no Brasil (lobby, tráfico de influência etc.) deve ser imenso. Basta lembrar que convenceram as autoridades (in)competentes nacionais de que não estavam violentando normas que regulam a formação de monopólios ao agregar Brahma e Antártica -o que constituiria então cerca de 70% do consumo nacional- com o argumento de que só assim poderiam concorrer no mercado globalizado. Mas depois foram gostosamente absorvidas por uma multinacional do ramo, certamente uma forma sutil de realizar a concorrência prometida. E não foi tomada nenhuma providência. Aliás, sempre que aparecia no cenário uma empresa nascente que, pela qualidade, pudesse despertar no brasileiro uma eventual discriminação quanto ao sabor, era ela acuada por todos os meios possíveis e finalmente absorvida, e sua produção, reduzida ao mesmo nível da mediocridade dos produtos das duas gigantes. Aparentemente, o receio era o de que a população cervejeira, ao ser exposta a diferentes e mais sofisticados exemplos, desenvolvesse algum bom gosto e, consequentemente, passasse a demandar cerveja de qualidade. A cerveja brasileira (com pequenas e honrosas exceções) é como pão de forma: mata a sede, mas não satisfaz o paladar exigente. Para esclarecer a questão da má qualidade da cerveja brasileira, vamos fazer alguns cálculos. A produção nacional de cevada tem ficado nos últimos anos entre 200 mil e 250 mil toneladas, das quais entre 60% e 80% são aproveitados pela indústria cervejeira. Essa produção agrícola tem sido suplementada por importação de quantidade equivalente. Em média, portanto, cerca de 400 mil toneladas de cevada são consumidas na indústria da cerveja no Brasil, presumindo-se que quase toda a importação tenha essa finalidade. O índice de conversão entre a cevada e o álcool é, em média, de 220 litros por tonelada. Como as cervejas brasileiras têm um teor de álcool de 5%, podemos concluir que seria necessário que houvesse pelo menos seis vezes a quantidade de cevada hoje disponível para a indústria nacional da cerveja. Portanto, a menos que um fenômeno semelhante àquele do "milagre da multiplicação dos pães" esteja ocorrendo, o álcool proveniente da cevada na cerveja brasileira representa cerca de 15% do total. Há pouco mais de duas décadas foi publicado um relatório de uma tradicional instituição científica do Estado de São Paulo segundo o qual análises de cervejas brasileiras mostravam que um pouco menos que 50% do conteúdo da bebida era proveniente de milho (obviamente sem considerar a água contida). Como o índice de conversão de grão em álcool para o milho é 80% maior que para a cevada, podemos considerar que a conclusão do relatório em questão atua como álibi, pois satisfaria normas vigentes. Isso também explica a preferência dos produtores de cerveja pelo milho, pois os preços da tonelada dos dois cereais são aproximadamente os mesmos, apesar de consideráveis oscilações. Esses números permitem, todavia, concluir que o milho (e outros eventuais cereais que não a cevada) constitui, em peso, quase três quartos da matéria-prima da cerveja brasileira, revelando sua vocação para homogeneização e crescente vulgaridade. Outro determinante da baixa qualidade da cerveja brasileira é a adição de aditivos químicos para a conservação. O mal não está só nessa condição, mas na sua necessidade. O lúpulo em cervejas de qualidade, sejam "lagers", sejam "ales", é o componente responsável pela conservação -além, obviamente, de suas qualidades de paladar. Depreende-se daí que os concentrados de lúpulo usados na cerveja brasileira são de baixa qualidade. O que é inexplicável e de lamentar, entretanto, é que as autoridades brasileiras, tão zelosas para com alimentos corriqueiros, sejam tão omissas quando se trata da bebida nacional mais popular e de maior consumo e permitam que o cidadão brasileiro beba gato por lebre.
ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE , 78, físico, é professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron) e membro do Conselho Editorial da Folha .
Escrito por Cambuinha às 10h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Mais Engenheiros.
Aos amigos engenheiros excelente artigo publicado ontem na FSP, sobre o que conversávamos outro dia.
Mais engenheiros para o brasil ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO
QUEM VIU o presidente Luiz Inácio Lula da Silva posar ao lado de grandes líderes mundiais em encontros do G10 e outros fóruns globais pode ter sido levado à falsa conclusão de que apenas esse movimento na mídia internacional pode ser suficiente para projetar o Brasil para a fase de desenvolvimento que o incluiu no Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Criada quase dez anos atrás pela equipe do economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neill, a sigla refere-se aos quatro maiores mercados emergentes e seu potencial de crescimento. No mundo real, há indicadores de sobra que nos colocam abaixo da média dos demais países do Bric. Entre eles, o número de novos engenheiros formados por ano. Inegável dizer que a força da engenharia num país está estreitamente ligada à capacidade de inovação tecnológica e à competitividade industrial. Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o número de engenheiros formados no Brasil em 2008, em todas as especialidades, é de 30 mil, quase 50% dos quais formados em instituições de ensino superior (IES) públicas -em outras áreas, dois terços se formam em particulares. Os demais países do Bric formam muito mais engenheiros do que nós: a Rússia forma 120 mil, a Índia, 200 mil, e a China, 300 mil. Esses números, embora aproximados e condicionados ao conceito da formação profissional, à duração e à pertinência das especialidades, indicam nossa defasagem na formação de engenheiros. Ainda que as populações desses países sejam diferentes, as discrepâncias aparecem claramente ao se comparar a vocação e o incentivo que cada país dá para a inovação tecnológica, sendo um bom indicador o percentual de engenheiros formados em relação ao total de concluintes no ensino superior. No Japão, 19% dos formados estão nas áreas de engenharia; na Coreia, 25%; na Rússia, 18%; no Brasil, só 5% (dados de 2007 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico -OCDE). A média da OCDE é de 14%, e dela não constam os números da China. Outra informação relevante é a produção científica brasileira na área de engenharia, que se coloca em patamar bastante inferior ao dos demais Brics -em parte como consequência dessa defasagem no número de formados, como demonstra a estatística sobre trabalhos publicados em 2007. Enquanto o Brasil publicou menos de 2.000 trabalhos, a Índia produziu 4.000, a Rússia, cerca de 3.500, a Coreia, 6.500, e a China, o número impressionante de 50 mil trabalhos. A disparidade é ainda mais gritante se observarmos que o Brasil está entre os países mais produtivos em trabalhos científicos na área de medicina. O mesmo problema ocorre no Brasil em relação às patentes. Os principais centros internacionais apontam os registros de patentes brasileiras em patamares muito inferiores aos dos demais Brics. Como explicar esse fenômeno? É simples. O custo da mensalidade é elevado por causa dos laboratórios e estágios, o que reduz a demanda do setor privado e tem levado ao fechamento de vários cursos. Por isso, entendo que seria importante que o governo adotasse uma política agressiva para incentivar a formação de engenheiros pelo setor privado, utilizando o mecanismo de compra de vagas em bons cursos, desonerando IES e estudantes. As instituições com bom desempenho em exames nacionais, como o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), seriam boas candidatas iniciais. Se houver dificuldade em financiar instituições com fins lucrativos, as instituições comunitárias poderiam ser escolhidas para dar início ao programa. O custo disso seria muito menor do que a alternativa de o próprio governo criar vagas de engenharia no setor público. Uma solução assim nos faria diminuir um pouco a distância que nos separa, nesse item, de nossos parceiros no Bric, que formam muito mais engenheiros por ano do que o Brasil. Calcula-se que, para cada milhão de dólares empregados em novos investimentos, é preciso agregar um novo engenheiro. Diante dos planos e das perspectivas de crescimento do país, milhares de novos engenheiros e técnicos serão necessários (cerca de 500 mil para a concretização do PAC). Como vários outros educadores, temos procurado alertar as autoridades educacionais sobre essa situação, e é com esperança que vemos que o Ministério da Educação e outras instâncias estão se mobilizando para enfrentar esse problema com a prioridade que ele merece.
ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO, 71, professor titular aposentado e ex-reitor da USP (1990-1993) e da Universidade de Mogi das Cruzes (1996-1999), foi diretor do CNPq e é presidente do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia.
Escrito por Cambuinha às 08h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Lula, O filho do Brasil – Impressões.

O filme “Lula, O Filho do Brasil” anda despertando os instintos mais primitivos. É calcado na desonestidade, uma vez que usa dinheiro – e muito – dos mais espúrios e conhecidos lobbies de Brasília e objetiva claramente ludibriar os pobres que não têm outras fontes de informação a respeito do “Nosso Guia”. Tudo em ano eleitoral, e a peça dotada de ilimitados recursos será exibida em todos os rincões do país. Basta ler o próprio livro de Denise Paraná, que também não se preocupa muito com a idoneidade das informações obtidas, para perceber as incongruências e omissões da película.
Lula é uma grande figura. História bonita, é fato. Mas a vida de qualquer um tem suas passagens inglórias. FHC só agora têm exposta pela grande imprensa uma delas: um filho fora do casamento com a jornalista Miriam Dutra. O caso passou incólume por muito tempo, com uma menção ou outra sem estardalhaço. Notável também a discrição da mãe. Como FHC esteve longe de evocar a epifania, como faz deliberadamente o Lula, ignorou-se o “caixa 2” matrimonial. Já as reações contra atitudes consideradas politicamente e moralmente incorretas perpetradas pelo Presidente petista serão muito mais acerbas. Reflexo da disposição de seu séquito de desonestamente tentar transformá-lo em mito do bem.
O projeto messiânico corre o risco de criar no país um movimento que objetivará atingir Lula, mas que pode implodir Instituições. Pode danificar a democracia brasileira. Exaltados cronistas revoltados com a torpeza das intenções Lulescas tendem a achincalhá-lo e desmoralizá-lo. Tais reações já são sentidas há tempos, e agora tornam-se mais evidentes. Como o artigo fantasioso de César Benjamin publicado na Folha de São Paulo na quinta-feira.
O ex-petista e companheiro de Lula, em quem já votei para vice-presidente nas eleições presidenciais de 2006, lançou um libelo. Insinuou que Lula perdeu a cabeça enquanto esteve preso durante 30 dias na época da Ditadura. Atacou um “menino” companheiro de cela. Teve seu ímpeto estuprador contido por cotoveladas, socos e chutes da vítima. A versão foi tirada de uma conversa informal do autor do artigo com Lula e outras personagens, que refutaram peremptoriamente a provocação. (Publiquei o artigo antes desse, por ser de utilidade pública).
Interpretando o fato como um delírio irascível de Benjamin, podemos inferir que os outros fatos por ele citados no relato são meros devaneios. Coisa de psicopata mesmo. Alguém que lê Freud poderia explicar facilmente face à história de vida do provocador.
Ilustra-se o que virará rotina. Lula será atacado como nunca na história deste país. E usará os achaques para promover-se ainda mais, ao arrepio da democracia. A própria disposição da Folha de publicar tão agressiva acusação fala por si.
É frágil a democracia brasileira. Os excessos de parte a parte são reflexos da situação dos Poderes no país. O Executivo concentra as ações, delibera os passos do Legislativo. Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores transformaram-se em órgãos meramente constituídos de estafetas dos Executivos. Não discute-se mais temas relevantes. A política brasileira está restrita ao colunismo social. Deseja-se participar do banquete do Poder e auferir suas vantagens econômicas e sociais. Nada de comprometer-se com necessidades relevantes. Reage o Judiciário manco que se vê no direito de preencher a lacuna do Legislativo, mas sem abrir mão dos vultuosos salários e do intolerável corporativismo. Lança também mão dos mais nefandos lobbies – por exemplo o das empresas pagaram a festa regada a champanhe da posse do Dr. Toffoli. Não me esqueci também do empenho do Dr. Mendes no caso Daniel Dantas.
Lula e seus asseclas prestam um desserviço à democracia brasileira. FHC jamais deveria forçar a emenda de reeleição. Os vícios antigos são como bola de neve e vão cobrando seu preço. Recuso-me a assistir esse filme de ficção barata chamado “Lula, O Filho do Brasil”.
Escrito por Cambuinha às 16h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Artigo comentado devidamente no próximo post.
Os Filhos do Brasil CÉSAR BENJAMIN A PRISÃO na Polícia do Exército da Vila Militar, em setembro de 1971, era especialmente ruim: eu ficava nu em uma cela tão pequena que só conseguia me recostar no chão de ladrilhos usando a diagonal. A cela era nua também, sem nada, a menos de um buraco no chão que os militares chamavam de "boi"; a única água disponível era a da descarga do "boi". Permanecia em pé durante as noites, em inúteis tentativas de espantar o frio. Comia com as mãos. Tinha 17 anos de idade. Um dia a equipe de plantão abriu a porta de bom humor. Conduziram-me por dois corredores e colocaram-me em uma cela maior onde estavam três criminosos comuns, Caveirinha, Português e Nelson, incentivados ali mesmo a me usar como bem entendessem. Os três, porém, foram gentis e solidários comigo. Ofereceram-me logo um lençol, com o qual me cobri, passando a usá-lo nos dias seguintes como uma toga troncha de senador romano. Oriundos de São Paulo, Caveirinha e Português disseram-me que "estavam pedidos" pelo delegado Sérgio Fleury, que provavelmente iria matá-los. Nelson, um mulato escuro, passava o tempo cantando Beatles, fingindo que sabia inglês e pedindo nossa opinião sobre suas caprichadas interpretações. Repetia uma ideia, pensando alto: "O Brasil não dá mais. Aqui só tem gente esperta. Quando sair dessa, vou para o Senegal. Vou ser rei do Senegal". Voltei para a solitária alguns dias depois. Ainda não sabia que começava então um longo período que me levou ao limite. Vegetei em silêncio, sem contato humano, vendo só quatro paredes -"sobrevivendo a mim mesmo como um fósforo frio", para lembrar Fernando Pessoa- durante três anos e meio, em diferentes quartéis, sem saber o que acontecia fora das celas. Até que, num fim de tarde, abriram a porta e colocaram-me em um camburão. Eu estava sendo transferido para fora da Vila Militar. A caçamba do carro era dividida ao meio por uma chapa de ferro, de modo que duas pessoas podiam ser conduzidas sem que conseguissem se ver. A vedação, porém, não era completa. Por uma fresta de alguns centímetros, no canto inferior à minha direita, apareceram dedos que, pelo tato, percebi serem femininos. Fiquei muito perturbado (preso vive de coisas pequenas). Há anos eu não via, muito menos tocava, uma mulher. Fui desembarcado em um dos presídios do complexo penitenciário de Bangu, para presos comuns, e colocado na galeria F, "de alta periculosia", como se dizia por lá. Havia 30 a 40 homens, sem superlotação, e três eram travestis, a Monique, a Neguinha e a Eva. Revivi o pesadelo de sofrer uma curra, mas, mais uma vez, nada ocorreu. Era Carnaval, e a direção do presídio, excepcionalmente, permitira a entrada de uma televisão para que os detentos pudessem assistir ao desfile. Estavam todos ocupados, torcendo por suas escolas. Pude então, nessa noite, ter uma longa conversa com as lideranças do novo lugar: Sapo Lee, Sabichão, Neguinho Dois, Formigão, Ari dos Macacos (ou Ari Navalhada, por causa de uma imensa cicatriz que trazia no rosto) e Chinês. Quando o dia amanheceu éramos quase amigos, o que não impediu que, durante algum tempo, eu fosse submetido à tradicional série de "provas de fogo", situações armadas para testar a firmeza de cada novato. Quando fui rebatizado, estava aceito. Passei a ser o Devagar. Aos poucos, aprendi a "língua de congo", o dialeto que os presos usam entre si para não serem entendidos pelos estranhos ao grupo. Com a entrada de um novo diretor, mais liberal, consegui reativar as salas de aula do presídio para turmas de primeiro e de segundo grau. Além de dezenas de presos, de todas as galerias, guardas penitenciários e até o chefe de segurança se inscreveram para tentar um diploma do supletivo. Era o que eu faria, também: clandestino desde os 14 anos, preso desde os 17, já estava com 22 e não tinha o segundo grau. Tornei-me o professor de todas as matérias, mas faria as provas junto com eles. Passei assim a maior parte dos quase dois anos que fiquei em Bangu. Nos intervalos das aulas, traduzia livros para mim mesmo, para aprender línguas, e escrevia petições para advogados dos presos ou cartas de amor que eles enviavam para namoradas reais, supostas ou apenas desejadas, algumas das quais presas no Talavera Bruce, ali ao lado. Quanto mais melosas, melhor. Como não havia sido levado a julgamento, por causa da menoridade na época da prisão, não cumpria nenhuma pena específica. Por isso era mantido nesse confinamento semiclandestino, segregado dos demais presos políticos. Ignorava quanto tempo ainda permaneceria nessa situação. Lembro-me com emoção -toda essa trajetória me emociona, a ponto de eu nunca tê-la compartilhado- do dia em que circulou a notícia de que eu seria transferido. Recebi dezenas de catataus, de todas as galerias, trazidos pelos próprios guardas. Catatau, em língua de congo, é uma espécie de bilhete de apresentação em que o signatário afiança a seus conhecidos que o portador é "sujeito-homem" e deve ser ajudado nos outros presídios por onde passar. Alguns presos propuseram-se a organizar uma rebelião, temendo que a transferência fosse parte de um plano contra a minha vida. A essa altura, já haviam compreendido há muito quem eu era e o que era uma ditadura. Eu os tranquilizei: na Frei Caneca, para onde iria, estavam os meus antigos companheiros de militância, que reencontraria tantos anos depois. Descumprindo o regulamento, os guardas permitiram que eu entrasse em todas as galerias para me despedir afetuosamente de alunos e amigos. O Devagar ia embora.  São Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produção dos programas de televisão da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara à frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.
Nesse contexto, deixei trabalho e família no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sofá, para tentar ajudar. Lá pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato. Dizia-me da importância do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opiniões sobre o Brasil e o momento da campanha, para então propor uma estratégia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu não queria tratá-lo mal. O primeiro encontro foi no refeitório, durante um almoço. Na mesa, estávamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicitário Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (segurança de Lula) e outro publicitário brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome também esqueci. Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta". Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do "menino", que frustrara a investida com cotoveladas e socos. Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram. O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.  Dias depois de ter retornado para a solitária, ainda na PE da Vila Militar, alguém empurrou por baixo da porta um exemplar do jornal "O Dia". A matéria da primeira página, com direito a manchete principal, anunciava que Caveirinha e Português haviam sido localizados no bairro do Rio Comprido por uma equipe do delegado Fleury e mortos depois de intensa perseguição e tiroteio. Consumara-se o assassinato que eles haviam antevisto. Nelson, que amava os Beatles, não conseguiu ser o rei do Senegal: transferido para o presídio de Água Santa, liderou uma greve de fome contra os espancamentos de presos e perseverou nela até morrer de inanição, cerca de 60 dias depois. Seu pai, guarda penitenciário, servia naquela unidade.
Neguinho Dois também morreu na prisão. Sapo Lee foi transferido para a Ilha Grande; perdi sua pista quando o presídio de lá foi desativado. Chinês foi solto e conseguiu ser contratado por uma empreiteira que o enviaria para trabalhar em uma obra na Arábia, mas a empresa mudou os planos e o mandou para o Alasca. Na última vez que falei com ele, há mais de 20 anos, estava animado com a perspectiva do embarque: "Arábia ou Alasca, Devagar, é tudo as mesmas Alemanhas!" Ele quis ir embora para escapar do destino de seu melhor amigo, o Sabichão, que também havia sido solto, novamente preso e dessa vez assassinado. Não sei o que aconteceu com o Formigão e o Ari Navalhada. A todos, autênticos filhos do Brasil, tão castigados, presto homenagem, estejam onde estiverem, mortos ou vivos, pela maneira como trataram um jovem branco de classe média, na casa dos 20 anos, que lhes esteve ao alcance das mãos. Eu nunca soube quem é o "menino do MEP". Suponho que esteja vivo, pois a organização era formada por gente com o meu perfil. Nossa sobrevida, em geral, é bem maior do que a dos pobres e pretos. O homem que me disse que o atacou é hoje presidente da República. É conciliador e, dizem, faz um bom governo. Ganhou projeção internacional. Afastei-me dele depois daquela conversa na produtora de televisão, mas desejo-lhe sorte, pelo bem do nosso país. Espero que tenha melhorado com o passar dos anos. Mesmo assim, não pretendo assistir a "O Filho do Brasil", que exala o mau cheiro das mistificações. Li nos jornais que o filme mostra cenas dos 30 dias em que Lula esteve detido e lembrei das passagens que registrei neste texto, que está além da política. Não pretende acusar, rotular ou julgar, mas refletir sobre a complexidade da condição humana, justamente o que um filme assim, a serviço do culto à personalidade, tenta esconder. CÉSAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se à resistência armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do país no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Heloísa Helena, do PSOL, do qual também se desfiliou. Trabalhou na Fundação Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. É editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.
Escrito por Cambuinha às 16h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Zé Cabala
Previsão de um atleticano do Bar para o fim deste campeonato:
"O Galo vai ganhar do Inter de modo acachapante. O Botafogo bate o SP com um gol no primeiro minuto de jogo e Jéfferson segura tudo lá trás, como fez contra o Inter. O Flamengo abre 2 no Goiás, mas leva o empate ainda no primeiro tempo e, no segundo tempo, sob as vaias da torcida, vê o gol de Iarley, aos 37 do segundo tempo. O Palmeiras perde para o Grêmio, com falha e irritação de Marcos e gol contra de Danilo.
Na sequência, apesar de querer entregar, o Flamengo joga tão mal, que o Corinthians ganha por 3x2. O Goiás, com moral após bater o Flamengo no Maracanã lotado, passeia contra o SP, que já sente o título indo embora e volta a jogar de modo frio. O Galo bate o Palmeiras no Parque de uma maneira mais fácil do que poderíamos imaginar. Na volta dos tricolores para SP, a torcida impede Washington de desembarcar e diz que o pé-frio é ele, que nunca foi campeão. Washington segue direto para o Urawa Red Diamonds.
O Galo, líder em número de vitórias, depende de uma vitória contra os gambás para ser o campeão. Mesmo assim, uma minoria da torcida do Galo diz: "Se não fosse o Burroth, seríamos campeões com 10 rodadas de antecedência. Fora Burroth! Fora Kalil! Fora Coelho!" Belico diz que se Tchô e Renan Oliveira estivessem em campo, o sofrimento não teria existido.
O Galo abre 2 gols em 5 minutos de jogo num Mineirão lotado. Até no fosso tem gente. Flamengo e São Paulo sabendo dos resultados desanimam e perdem para Grêmio e Sport, respectivamente. O Botafogo, se livrando da Série B, goleia o Palmeiras por 4x1 e devolve uma goleada entalada na garganta pela Série B de 2003.
Na Libertadores, Galo, SP, Flamengo e Palmeiras. Galo campeão com 3 pontos e 2 vitórias a mais que o vice. BH pára. E uma semana depois, o SporTV Repórter apresenta reportagem especial com uns malucos que fazem um caminho a pé indo de não sei onde para Caetité. Os caras só sabem falar Galo e choram copiosamente."
Escrito por Cambuinha às 23h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Dilema ético
O caderno Cotidiano da FSP de Domingo mostrou uma história na qual os Médicos e profissionais de saúde e do Direito devem ficar atentos. Com a possível popularização dos testes genéticos doravante, pode-se causar danos inestimáveis aos portadores de doenças hereditárias. Reportagem de Fernanda Bassette.
"Por 14 anos, a servidora pública Edília Ferreira Miranda Paz, 59, guardou segredo, num cofre dentro de casa, sobre os resultados de um teste genético que envolviam cerca de 40 pessoas da família, entre irmãos, sobrinhos e sobrinhos-netos.
Os papéis revelavam quais deles tinham a alteração genética que causa Huntington, doença hereditária que ataca o sistema nervoso central. A condição se manifesta a partir dos 40 anos, provoca problemas motores e mentais, não tem cura e, em geral, leva o paciente à morte por volta dos 50 anos. O histórico de Huntington apareceu na família na década de 1960, quando o professor Marcondes Miranda, então com 56 anos, começou a apresentar os primeiros sintomas: movimentos corporais irregulares e involuntários, falta de coordenação motora, alterações bruscas de humor e dificuldades para andar e engolir. Diagnosticado com a doença em 1969, Marcondes logo se tornou totalmente dependente dos familiares, parou de andar e de falar. Morreu em 1974. Pouco tempo depois, dois filhos do professor começaram a apresentar sinais da doença. Em 1978, uma das filhas, com pouco mais de 40 anos, casada e com sete filhos, foi diagnosticada com Huntington e morreu seis anos mais tarde. Logo em seguida, um dos filhos homens também teve sintomas da doença. "Foi nessa época que começamos a olhar com olhos clínicos para todos nós. A essa altura, eu já tinha dois filhos. Estávamos totalmente perdidos", conta Edília. Por se tratar de uma doença dominante, as chances de uma pessoa com Huntington transmitir o gene doente para o filho são de 50%. Até 1994, quando chegou ao Brasil o teste capaz de identificar o gene com o problema, não havia nenhum exame que apontasse a existência da doença -o diagnóstico era sempre clínico. Convencida por um neurologista de Brasília, a família Miranda juntou dinheiro com a ajuda de um amigo e pagou cerca de R$ 80 mil para fazer o exame genético em todos. Eles foram a primeira família do país a fazer o exame de Huntington. Amostras de sangue de recém-nascidos, crianças, adolescentes e adultos foram encaminhadas a um laboratório em Curitiba -o único do país a fazer os testes para essa doença naquela época. Quando os resultados ficaram prontos, Edília foi convocada a ir ao consultório receber os diagnósticos. E o que era para ser um motivo de alívio para a família tornou-se um drama. Dos 14 filhos de Marcondes, oito eram portadores do gene e, em algum momento, desenvolveriam a doença -Edília não era portadora. Mais da metade das crianças e adolescentes tinha o gene alterado. "Meu mundo caiu. Só quando eu peguei os resultados nas mãos é que tive noção do tamanho do drama que viveríamos a partir daquele dia. Não sabia se ficava feliz por não ser portadora ou se me desesperava vendo que meus sobrinhos, ainda crianças, eram portadores." Edília diz que só então se deu conta de que o teste genético apontaria quem eram os portadores da doença, mas não traria possibilidades de cura. "Eu enlouqueci. De que adianta fazer teste para saber se você tem uma doença se não há nada a ser feito depois?", diz. Com os exames em mãos, Edília ligou para duas cunhadas e perguntou se elas queriam saber os resultados. Elas disseram que não. Outros familiares também não quiseram saber e pediram a ela que se desfizesse dos documentos. Edília guardou o segredo por todo esse tempo e há pouco mais de um ano tirou os documentos do cofre e os queimou. "Olhar aqueles exames foi como receber a condenação de uma doença que não tem cura e que o tratamento só ameniza os sintomas. Se eu tivesse um inimigo, não queria que ele estivesse na minha pele", conta. Uma das irmãs de Edília, casada e com quatro filhos, foi a única que quis saber os resultados. Foi ao consultório com a família, e o filho de 19 anos foi recebido pelo médico. "Ele começou a gritar desesperadamente. Minha irmã pensou que ele tinha o gene, mas, na verdade, ele soube que a mãe e os três irmãos eram portadores e ele não", lembra. Edília critica o despreparo dos médicos que sugeriram a realização dos exames sem indicar um tratamento psicológico para a família. "Posso dizer que existe um marco da doença de Huntington no Brasil antes e depois da família Miranda." O geneticista Salmo Raskin, que enviou a Brasília os exames da família, reconhece que, há 15 anos, a falta de experiência com a doença provocou a dificuldade de lidar com o diagnóstico. "Hoje a gente sabe que o teste deve ser feito com acompanhamento psicológico. A experiência com essa família foi um grande aprendizado", afirma. Dos 14 filhos de Marcondes Miranda, sete morreram -cinco deles com a doença. Dos sete vivos, três são portadores do gene. Os descendentes que herdaram a doença e querem ter filhos podem fazer a seleção do embrião sem o gene doente. "Para mim, essa é a única justificativa para alguém fazer o teste genético, pois não temos o direito de passar essa dúvida para os nossos herdeiros." Segundo Maria Gorette Marques, coordenadora da ABH (Associação Huntington Brasil), estima-se que a doença afete entre 70 e 100 pessoas em cada grupo de 1 milhão. No mês passado, a entidade lançou dois livros: "Doença de Huntington - Guia para Família e Profissionais de Saúde" e "Doença de Huntington - Relatos e Depoimentos". Os exemplares estão disponíveis no site (www.abh.org.br) e podem ser adquiridos por meio de uma doação à associação."
Escrito por Cambuinha às 23h46
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Absurdos
Quando minha querida prima foi dar a luz, optou pelo parto normal. O marido é americano e lhe deu todo apoio na escolha, pois naquelas bandas a cirurgia cesárea é para exceções. Pensei comigo que o Brasil é mesmo subdesenvolvido, uma vez que mais de 80% dos nossos partos são cesáreos! Eu, que fui operado recentemente devido uma apendicite aguda, se fosse mulher não titubearia e escolheria o parto normal – se um cortinho de nada já doeu muito por 15 dias, imagine um corte bem maior e envolvendo um útero enorme! Sem contar que o parto normal oferece menores riscos de complicações para o nascituro e a mãe.
Assim, era de se esperar que os americanos também prezassem pela amamentação. Pois veja o depoimento da minha prima, que mora numa cidadezinha no interior dos EUA (Oklahoma) e agora iniciou suas atividades na Blogosfera: http://vvargass.zip.net/ (...)“Calculei que terminaria minhas compras em 30 minutos, voltaria pra casa e ainda teria tempo para guardar as coisas antes dele acordar faminto. Mas como nunca fui muito boa com relação à orientação de tempo e espaço, meus planos não deram certo. Demorei 1 hora para encontrar tudo o que precisava e ele acabou acordando. Eu tinha 2 opções: Encher a barriguinha dele de leite ali no mercado, ou deixar ele esperando 20 minutos até chegarmos em casa. Escolhi a primeira opção. Mas onde??? No carro não dava pois estava longe, eu não tinha passado pelo caixa ainda e aqui nos EUA não tem caixa preferencial para idosos, gestantes, deficientes e lactantes. Tinha um banco de madeira na entrada principal do mercado e tinha também o banheiro. Larguei meu carrinho pra trás e fui pro banheiro. O cheiro lá dentro estava insuportável. Sentei no vaso sanitário, daqueles sem tampa, e bastante desajeitada coloquei o meu bebê no peito. Cada vez que alguém dava descarga, meu bebê se assustava. Não aguentei ficar ali nem 1 minuto. Antes de eu sair do banheiro, pra minha surpresa, escutei um barulhinho familiar. Era um outro bebê mamando, também dentro de um dos cubículos! "Que absurdo!", pensei. Dirigi-me ao banco de madeira na entrada do mercado. Sentei, coloquei meu bebê pra mamar. Sem exagero, TODAS as pessoas que entraram e saíram por aquela porta olharam pra nós como se fôssemos coisa de outro mundo. Muitas delas fizeram cara feia, outras cochicharam, duas ou três sorriram pra mim. Eu tentei não olhar pra elas, fiquei olhando pra ele e esperei ele terminar. Depois de uma meia hora ele olhou pra mim, arrotou e sorriu. Terminei minhas compras e fomos pra casa. Ele satisfeito e contente, eu aliviada por ter alimentado o meu bebê no momento certo. Mas fiquei muito indignada com a atitude das pessoas, afinal existe coisa mais bonita do que a maternidade? Que mundo estranho é esse em que estamos vivendo? Onde uma mãe não pode amamentar o seu bebê sem procupações? Fatos: Aqui nos EUA o índice de aleitamento materno é muito baixo. Muitas mães já saem da maternidade dando fórmula aos bebês. Outras compram o "tira leite" automático no Wallmart, retiram o próprio leite e colocam na mamadeira. Tem até recipientes próprios para colocar o leite antes de ser congelado. Assim não precisam amamentar em público. Aonde fica a tão importante relação mãe-bebê nessa história toda?” (...) Polêmico também o fato de nos EUA não haver caixa preferencial para quem precisa. Por que as pessoas não gostam de amamentar? Penso que a vaidade feminina – e mesmo masculina naqueles “mais heterodoxos” – transforma-se em patologia. Seria para o peito não cair? Teriam as mulheres vergonha de seus seios túrgidos? O que os americanos vêem de despudorado e séptico no ato de amamentar? O que há de errado na foto aí em cima? Pudicícia e vaidade patológicas. Aqui no Brasil, dia desses pegou fogo numa favela em São Paulo. Enquanto uma mãe tentava salvar seus singelos apetrechos do barraco em chamas, a vizinha estava com o filho daquela o amamentando! Viu que a criança chorava e não teve dúvidas. Frente a uma câmera de TV que registrava tudo, tirou o seio para fora e a criança se satisfez. A repórter foi entrevistá-la e escutou palavras doces acompanhadas por um belo sorriso. Aquela criança agora era um pouco filha da pobre e macilenta “mãe-de-leite”. Esquecemos que somos homo sapiens. Uma espécie que precisa de sexo, comida, urinar, evacuar, amamentar e reproduzir. Reprimimos o reflexo gastro-cólico (no café-da-manhã o estômago que se enche promove contrações colônicas que favorecem a evacuação) todos os dias, pois sempre estamos atrasados para o trabalho. Então compramos caixas de “Activia”. Não queremos filhos pois o que enobrece é o dinheiro e trabalho. Mulheres não amamentam pois peito é pra apontar ao norte e se encher de silicone. Ora! Um sujeito pode ser o Bill Gates, tem milhões e milhões de dólares. Se não tiver filhos, biologicamente é um fracassado. Ademais, perdoem-me por ser meio prolixo, as mulheres grávidas são as mais bonitas que se vê por aí. Talvez pela chuva inesgotável de hormônios femininos que circulam. Tornam-se muito mais atraentes. E viva a Biologia! Abaixo o capitalismo que quer transformar humanos em máquinas estéreis!
Escrito por Cambuinha às 15h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
João e Maria
João adora futebol, sua história e bastidores. Maria adora o colunismo social, o colunismo de celebridades. Cada um gosta de suas amenidades.
João adora a política, a história, as polêmicas e as dissertações. Maria adora o Harry Poter, gosta de orações. Cada um com suas maquinações. João é minimalista, tem um violão e uma meia dúzia de livros. Maria adora móveis do momento, aquele sofá da propaganda, aquela loja dos ricos. Cada um com suas bugigangas. João adora os pijamas, ler os jornais quando chega do trabalho. Maria odeia João lendo, adora novelas e ir ao cinema – João só vai nas promoções. Cada um com suas distrações. João tem roupas puídas, de alto valor sentimental. Maria tem as da revista, últimos lançamentos. Cada um com seu orçamento. João trabalha pouco, sonha apenas com aquela casinha com o fusquinha na garagem. Maria sonha com seus castelos, príncipes e ovações. Cada um com suas construções. João adora um barzinho meio de esquerda, aquela cerveja gelada, papear num sambinha com feijoada. Maria adora os bailes, os donairosos vestidos e aquele restaurante francês, onde na vida só se vai uma vez. Cada um com seus amigos. Certa feita João conheceu Joana. Joana adora futebol, é minimalista, adora um violão, sabe tudo de jornais, de livros, é polemista nata, usa vestidinhos estampados singelos, não tem nem fusquinha, e a prosa deles rendeu num barzinho meio de esquerda, com a cerveja gelada e o sambinha animado. Os dois com únicos interesses. João animou-se muito, até demais, e não percebeu o principal de Joana: afinal era uma mulher, e uma bela mulher. Discorriam sobre as ditaduras sangrentas e sobre os políticos maquiavélicos, passando pelo time do coração. Ah! O Coração! Foi esse o erro de João! Esqueceu-se que nenhuma mulher, nem mesmo Joana, tolera as saudáveis convicções masculinas mundanas. Quis ingenuamente ilimitadas amizade e cumplicidade, como as daquele velho amigo da faculdade. Mas Joana era uma inflexível e pudenda mulher. Como todas. Ostentava a razão e no fundo era mais emoção. Como todas. E o ingênuo João, com aquela sua maquinação, ainda espantou-se com aquela súbita e sobeja desaprovação. Descobriu o João que Joanas na verdade não existem. Ele não deveria ser tão inconveniente. Mentir é sempre o caminho mais fácil. Afinal, verdades demais são muito contraproducentes. E segue João com Maria, feliz é certo, mas ainda sonhando encontrar alguma diletante Joana, cúmplice hedonista ilimitada. Pobre João. Será que descobrirá um dia que no fundo, no fundo, todas as Joanas são Marias? Texto de Bartolomeu Cipriano.
Escrito por Cambuinha às 22h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Castigo
O ex-promotor Igor Ferreira da Silva entregou-se esta semana à polícia para responder à acusação de matar sua mulher grávida, há 8 anos. Não impressionou-me o crime em si e tampouco o fato do acusado ficar todo esse tempo foragido. Não sou do grupo de linchadores e arautos da justiça que se vê por aí. Atento para suas possíveis motivações para entregar-se.
Noticiou-se que o réu em fuga embrenhou-se na Argentina, Santa Catarina, interior de São Paulo e até mesmo morou próximo à casa de sua mãe na capital paulista por alguns meses. Inicialmente procurou locais mais desertos. De posse de um violão, apresentou-se em barzinhos. Em Taubaté trabalhou alguns anos de pintor de paredes. Chegou a confeccionar objetos de couro como bolsas e peças de decoração. Ultimamente trabalhava na tradução para o Português de um livro em Inglês sobre a filosófica peregrinação de um homem pelos confins da Ásia no início do século passado, segundo o jornal de hoje.
Nota-se que não é um sujeito qualquer. Com dom para artes, para trabalhos minuciosos que exigem concentração. Tradutor de livro de filosofia, bilíngüe. Dotado de capacidade adaptativa notável. Também azougado para enganar a polícia – não andava portando documentos, o que não é crime. Um crime qualquer um de nós pode cometer. Aliás, a probabilidade não é tão baixa assim: basta perguntar aos seus amigos quantos deles já dirigiram bêbados.
Por que Igor se entregou? A família divergia da decisão. Alguns queriam que continuasse foragido. Outros concordavam na trégua com a Justiça. Estaria ele incomodado com a clandestinidade? Não estaria suportando a mediocridade da vida em que se meteu? Cansou-se dos serviços menores, de trabalhos manuais? Não acredito que tais motivações o fariam se submeter aos incautos linchadores e ao cárcere.
Como Dimitri Karamazov em “Os Irmãos Karamazov” – Fiódor Dostoiévski, livro que mudou muitos dos meus conceitos, o ex-promotor transformou-se de assassino em vítima. A morte da esposa grávida, fato tão ou mais grave que o parricídio atrubuído ao personagem russo, tornou-se seu verdugo. Deve atormentá-lo indefinidamente, como um auto-flagelo que dispensa desterros. Dimitri não matou o pai, o truão Fiódor Karamazov. Tinha todos os motivos para fazê-lo. Contudo levava uma vida mundana de golpes, bebidas e mulheres. Prezava apenas seu irmão Alíocha, um monge com quem se aconselhava. O seu julgamento é dos mais belos capítulos de literatura que já li, especialmente sua peça de defesa. É desterrado para a Sibéria e não obstante sua inocência, culpa-se pela desregrada e imoral vida que levava. Revela ao seu irmão Alíocha que talvez seja mesmo o seu destino, resignado, e que o transformaria em catarse. Há de se repensar a reclusão para réus primários, exceto os comprovadamente psicopatas. A punição é eterna e dura. Independe do cárcere.
Escrito por Cambuinha às 00h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Ao ingenuamente refutar as manifestações comunistas em homenagem à Mercedes Sosa fui veementemente criticado por uma irascível e exigente amiga. Deve ter me achado ingênuo, para não dizer um pulha. Outrora já tinha me classificado de canastrão. Pois como desagravo publico este grande poema que traduz os meus sentimentos no zênite das paixões intempestivas, em homenagem a ela:
Ultimatum Álvaro de Campos - 1917 “Mandado de despejo aos mandarins do mundo Fora tu reles esnobe plebeu E fora tu, imperialista das sucatas Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro. Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos. Monte de tijolos com pretensões a casa Inútil luxo, megalomania triunfante E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir. Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular Que confundis tudo! Vós anarquistas deveras sinceros Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar. Sim, todos vós que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo Passai, aristocratas de tanga de ouro, Passai frouxos Passai radicais do pouco! Quem acredita neles? Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora. Sufoco de ter só isso a minha volta. Deixem-me respirar! Abram todas as janelas Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão! E o mundo quer a inteligência nova O mundo tem sede de que se crie O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro. O que aí está não pode durar porque não é nada. Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar! Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo. Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.”
Escrito por Cambuinha às 00h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Mercedes Sosa
Vi Mercedes Sosa ao vivo no ano retrasado. Um show memorável no Credicard Hall que meu pai ficou fulo da vida de não tê-lo chamado. Apresentou-se junto à Maria Rita.
Com seis músicos, abriu o show Maria Rita. Bandinha boa, mas não fazia jus à expectativa geral! Todos foram para assistir à argentina. Chamada pela colega, dois seguranças auxiliaram Mercedes a andar até uma cadeira de vime. Um trajeto de 20 metros que demorou alguns segundos. Serviram para a comoção do público que lotava a casa. Como estava velha! E doente. Obesa. “É diabética”, disse um senhor sentado ao meu lado. Aconchegou-se a uma cadeira de vime, sob aplausos. Microfone foi-lhe ajustado. Todos apreensivos quanto ao seu desempenho. Cerca de 10 músicos argentinos adentraram ao palco. As duas entoaram “Gracias a la Vida”, um salmo latino americano da chilena Violeta Parra. Emocionante. A potência de sua voz aos 72 anos era admirável. Logo depois retirou-se Maria Rita com seus músicos. E os argentinos acompanharam “La Negra” por duas horas esfuziantes. Com direito a Atahualpa Yupanqui, tangos, folclores e bandoneon. Confesso que rolaram-me lágrimas ao vê-la cantar Coração de Estudante, música que para mim tem especial significado. Sosa é uma voz marcante. Talento original que entoou de coração as músicas de sua terra, a América Latina. Cara de índia, “La Negra”. Logo impuseram-lhe a pecha de “esquerdista”, “comunista”. Aliás, nunca vi taxarem índio e preto de direitistas, reacionários. Compañeros adoram factóides. É certo que emplacou algumas corajosas canções num período crítico ditatorial: “Se se cala el cantor, cala la vida...”;“La guitarra és mi pueblo, compañero!”; “Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar/ Y una hermana tan hermosa que se llama libertad...”. Versos marcantes. Porém nada mais. Comunista era Violeta Parra. Mercedes merece ovações por seu talento e originalidade, nada mais. Abaixo os retóricos da esquerda que querem promover ideologias baratas às custas de seu nome. É certo também que ela surfou nesta onda até o fim da vida, mas estou de saco cheio de retóricas. Viva a arte! Viva Mercedes Sosa e sua voz marcante! Abaixo os porcos oportunistas! Piedra y camino Del cerro vengo bajando, Camino y piedra, Traigo enredada en el alma, viday Una tristeza... Me acusas de no quererte. No digas eso... Tal vez no comprendas nunca, viday Porque me alejo... Es mi destino Piedra y camino... De un sueño lejano y bello, viday Soy peregrino... Por mas que la dicha busco, Vivo penando... Y cuando debo quedarme, viday Me voy andando... A veces soy como el rio: Llego cantando... Y sin que nadie lo sepa, viday Me voy llorando... Es mi destino, Piedra y camino... De un sueño lejano y bello, viday Soy peregrino... Atahualpa Yupanqui
Escrito por Cambuinha às 23h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
FOTOBLOG
Caros amigos,
Indico-lhes o FOTOBLOG de meu grande amigo Danilo Haliz. Sensibilidade a um clique: http://www.flickr.com/photos/danilohaliz/
Escrito por Cambuinha às 23h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Golpe em Honduras
Ontem um membro do Departamento de Estado americano lembrou do filme “Bananas”, de Woody Allen - gravado em 1971, comparando os episódios de Honduras ao enredo que versava sobre uma fictícia republiqueta na América Central. Os fatos atuais são igualmente cômicos, ele tem razão.
Não vou mais à seção de quadrinhos ou à coluna do Macaco Simão para dar algumas risadas. O José Simão está até muito sem graça. As piadas são todas contadas por Fabiano Maissonavve, repórter da FSP que está abrigado na Embaixada Brasileira de Tegucigalpa. Conta-nos o dia-dia dos agora cerca de 50 “moradores”. Filas para tomar banho, furto da toalha daquele repórter, disputa renhida por um cigarrinho, vivas à Pátria e ao Zelaya. Nos primeiros dias alimentaram-se quase que exclusivamente de pizzas. Sem contar nas provocações que fazem aos praças do Exército Hondurenho do lado de fora.
As fotos não são menos risíveis. O Zelaya com seu bigode tingido de negro, cabelos desgrenhados a colocar seu chapéu de milionário texano. Uma foto o flagrou dormindo no sofá da embaixada com o chapelão cobrindo o rosto. Noutra o radialista da Rádio Globo, que entra no ar ao vivo por quase todo o dia, está de meias com as pernas pra cima sobre a mesa depois de sua rádio ter sido censurada pelo Michelletti. O paladino de Zelaya merece ficar num quarto especial – a área dos arquivos da Embaixada. Bem como os familiares do presidente ocupam o escritório do Embaixador que não está presente. O filho e a namorada saíram hoje da embaixada pois têm de retomar suas aulas na Faculdade – privilégio concedido pelos golpistas. Os outros dormem em cima de papelão, de cobertores, com a cabeça recostada pela mochila. Agora chegam víveres cedidos por organizações humanitárias. Zelaya foi acordado, há 3 meses, de madrugada e gentilmente embarcado de pijamas para a Nicarágua, numa clara violação à Constituição Hondurenha. A quem cabe sua defesa, coube sua destruição: a Suprema Corte do país coonestou o Golpe dado por Michelletti e pelas Forças Armadas. Mel, como é carinhosamente chamado o deposto, queria impor um plebiscito para permitir reeleições à presidência no próximo pleito – para alguns açodados e defensores do Golpe, como o Reinaldo Azevedo, já é motivo para a tosca quartelada.
O que se seguiu foram histórias inusitadas dignas de galhofas. Logo na manhã que seguiu à deposição, arrumaram uma carta-renúncia supostamente escrita pelo agora ex-presidente que foi lida no Congresso - o "autor" nega a autenticidade da obra. Poucos dias depois, o presidente venezuelano Chávez, o maior histrião da América Latina, forneceu um avião de sua Força Aérea para reconduzir Zelaya ao país. Ao tentar pousar no aeroporto de Tegucigalpa, os malucos a bordo deparam-se com um caminhão do Exército atravessado na pista. Tiveram de arremeter e voltar para a Nicarágua. Depois, Mel comprou um Jipe – estilo Land Rover – na Nicarágua. Andou 150km rumo a Honduras e dormiu num vilarejo acompanhado de seu séquito revolucionário. No dia seguinte, seguiu em direção à fronteira. A poucos metros dela, desceu do veículo e proferiu longo discurso em defesa da pátria e da democracia. Estava de pé em cima de um banco de madeira dentro de uma barraca de caldo de cana, na beira da estrada. Acompanhavam a imprensa e seus correligionários. Quando chegou ao seu país, deu dois passos e o esperavam Oficiais. Um liga para o outro, contatados os superiores, e optou-se pelo retorno do exilado à Nicarágua. O que ele fez com o jipe não sei dizer. Presidente da Costa Rica eleito para dar cabo ao conflito, Oscar Árias não logra resultado. O embaixador americano que deu abrigo à esposa e filhos de Zelaya logo após o golpe também adotou a defesa da constitucionalidade. Fato curioso é que depois da nomeação do americano Mel não quis recebê-lo em protesto contra a política yankee na Bolívia que contrariava interesses do amigo bolivariano Evo Morales. O mundo posicionou-se contra o Golpe. Eis que Zelaya em condições suspeitíssimas aparece na embaixada brasileira. Sua mulher, na calada da noite, toca a campainha e pede para falar com o diplomata presente. Solicita guarida ao deposto. Assustado, Francisco Catunda liga para o Itamaraty, que assente ao pedido. Eis que num golpe de mágica e de mestre instala-se o caos na Embaixada que passa a abrigar trezentas pessoas, surgidas ninguém sabe de onde. Hugo Chávez admite participação na misteriosa volta e diz que emprestou novamente um avião que conduziu o herói da resistência a El Salvador. De lá, Zelaya entrou escondido, segundo Chávez, e com a ajuda de asseclas andou até dentro de porta-malas de um carro para chegar ao seu novo Bunker, a embaixada brasileira em Tegucigalpa. Celso Amorim havia dito após a deposição que o golpe duraria três meses. Venceu o tempo e estamos numa situação inusitada. Os golpistas, depois de toques de recolher e algumas mortes, já enfrentam alguma resistência no Congresso – não me espantaria se ele fosse fechado. A população, já carente de comida e pobre de longa data, está insatisfeita com a situação. Os comerciantes e industriais também sinalizam pela resolução imediata do conflito. Os candidatos à eleição presidencial de novembro, que ocorreria junto ao plebiscito pretendido por Zelaya, querem garantir o pleito. O mundo todo defende a volta de Mel para que as eleições sejam reconhecidas. O governo golpista está numa sinuca de bico. Ou radicaliza de vez, fecha o Congresso e espera Zelaya se cansar da dura rotina no sofá da embaixada, ou negocia e o reconduz ao poder. Quanto ao Lula, se é que não sabia das maquinações de Manuel Zelaya, deu sorte de tornar-se de chofre o defensor mundial da democracia. Não podemos mais aceitar quarteladas na América. Segundo artigo do Elio Gaspari de hoje, foram 300 no século passado, 12 só no Brasil – resultando em 29 anos de ditadura. E para quem acredita que hoje, com Internet, com todos os recursos tecnológicos que dispomos, Golpes de Estado são apenas possíveis em pequenos e pobres países como Honduras, basta rever os fatos ocorridos na Venezuela em 2002. Hugo Chávez foi deposto depois de uma belíssima orquestração que conduziu Pedro Carmona ao Poder. É fato que o pulha Chávez voltou três dias depois, mas se quiser assistir à dinâmica de um Golpe, está tudo no Youtube! Devemos apoiar ao máximo a desmoralização dos golpistas de Honduras a fim de extirpar o cancro das quarteladas na América Latina. Noves fora que para o ridículo não há limites, este BLOG está com El Loco Manuel Zelaya!
Escrito por Cambuinha às 12h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Santa Pizza!
A história que segue é real e ocorreu ontem.
- Alô... Hablas donde? - La Honduritália Pizzaria de Tegucigalpa, buenas noches. - Nosotros queremos pedir pizzas. - Hablem. - 25 de Muzzarela, 25 Calabresas, 25 Astecas (mutcha pimienta), 25 Gallinaceas. 50 Cuecas-cuelas. - ARRIBA! Una fiesta? - Mas ou menos... - Sinto, pero son mutchas pizzas. Entregaremos 3 horas adelante. - Tudo bien. Aguardamos. - Rua? - Embaixada Brasileña. - ARRIBA! Disseron-me que los brasileños gustan de una pizza! - Mas ou menos... Quanto? - Cinco mil Lempiras. Diñero? - Vivo. - ARRIBA! - Mutcho recheo. Hay hombres ambrientos acá. - Si, presupuesto. Gracias! Ligue siempre! Desligado o telefone, o dono da Pizzaria em êxtase dirige-se aos pizzaiolos: “Fuerza máxima! És lo pedido mas valioso do año!” Então diz aos motoboys: “Convoquem 10 motos! És la mayor entrega del año!” Então solta um berro: “La comissión será dobrada a todos!” E os pizzaiolos abastecem o forno a lenha e logo saem os 10 motoqueiros. Os motoqueiros não foram informados, mas o país está sob sítio! Dobram a esquina e deparam-se com milhares de pessoas. Aceleram as motos. Elas abrem espaços. É o exército humanitário da Honduritália! Vencem a turba enlouquecida, quando militares os param, apontando suas armas: - Donde vão? - Calma! Estamos apenas trabajando! Que pasa? – pergunta o líder dos entregadores. - Zelaya está en la embaixada brasileña. - Pero entonces estamos em missione humanitária! Não podemos deixar lo ex-presidente hambriento! O Sargento pediu um minuto e falou por rádio com superiores. - Liberada la passaje. Que sabores? - Asteca, Muzzarela, Calabresa e Gallinaceas. - Me deixe duas de cada. E cinco Cueca-Cuelas. Los plazas tambiém tienem hambre. - Custan 300 lempiras. - Non se puede cobrar por la pátria! E lá se vão os 10 motoqueiros. Em frente à casa, militares abrem espaço. Os 10 pegam dez embalagens empilhadas cada, que matariam a fome de 300 pessoas dentro da embaixada. O líder recebe as 5000 lempiras do satisfeito embaixador brasileiro, aliviado pois dispunha de víveres apenas para 5 pessoas durante uma semana. Quando estoura uma bomba de gás lacrimogênio acordando até Manuel Zelaya, que cochilava no sofá após viagem cansativa desde a Nicarágua ao lombo de um burrico. Após uma lufada de gás, o embaixador, sem perceber o desfalque de 8 pizzas, fecha a porta na cara do motoboy-chefe aos vivas dos hóspedes, que atacam vorazmente as Honduritalias e bebem Coca-Cola no bico da garrafa. Ignoraram a tosse inextricável do embaixador. Com o desfalque promovido pelos militares, o jeito é dormir mais cedo e acordar mais tarde para pular as refeições, como o pessoal aqui do Brasil faz. Que seria de nós sem o disque-pizza!
Escrito por Cambuinha às 16h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
|

|
|

|