Blog do Cambuinha


Golpe em Honduras

 

 

Ontem um membro do Departamento de Estado americano lembrou do filme “Bananas”, de Woody Allen - gravado em 1971, comparando os episódios de Honduras ao enredo que versava sobre uma fictícia republiqueta na América Central. Os fatos atuais são igualmente cômicos, ele tem razão.

Não vou mais à seção de quadrinhos ou à coluna do Macaco Simão para dar algumas risadas. O José Simão está até muito sem graça. As piadas são todas contadas por Fabiano Maissonavve, repórter da FSP que está abrigado na Embaixada Brasileira de Tegucigalpa. Conta-nos o dia-dia dos agora cerca de 50 “moradores”. Filas para tomar banho, furto da toalha daquele repórter, disputa renhida por um cigarrinho, vivas à Pátria e ao Zelaya. Nos primeiros dias alimentaram-se quase que exclusivamente de pizzas. Sem contar nas provocações que fazem aos praças do Exército Hondurenho do lado de fora.

As fotos não são menos risíveis. O Zelaya com seu bigode tingido de negro, cabelos desgrenhados a colocar seu chapéu de milionário texano. Uma foto o flagrou dormindo no sofá da embaixada com o chapelão cobrindo o rosto. Noutra o radialista da Rádio Globo, que entra no ar ao vivo por quase todo o dia, está de meias com as pernas pra cima sobre a mesa depois de sua rádio ter sido censurada pelo Michelletti. O paladino de Zelaya merece ficar num quarto especial – a área dos arquivos da Embaixada. Bem como os familiares do presidente ocupam o escritório do Embaixador que não está presente. O filho e a namorada saíram hoje da embaixada pois têm de retomar suas aulas na Faculdade – privilégio concedido pelos golpistas. Os outros dormem em cima de papelão, de cobertores, com a cabeça recostada pela mochila. Agora chegam víveres cedidos por organizações humanitárias.

Zelaya foi acordado, há 3 meses, de madrugada e gentilmente embarcado de pijamas para a Nicarágua, numa clara violação à Constituição Hondurenha. A quem cabe sua defesa, coube sua destruição: a Suprema Corte do país coonestou o Golpe dado por Michelletti e pelas Forças Armadas. Mel, como é carinhosamente chamado o deposto, queria impor um plebiscito para permitir reeleições à presidência no próximo pleito – para alguns açodados e defensores do Golpe, como o Reinaldo Azevedo, já é motivo para a tosca quartelada.

O que se seguiu foram histórias inusitadas dignas de galhofas. Primeiro, o presidente venezuelano Chávez, o maior histrião da América Latina, forneceu um avião de sua Força Aérea para reconduzir Zelaya ao país. Ao tentar pousar no aeroporto de Tegucigalpa, os malucos a bordo deparam-se com um caminhão do Exército atravessado na pista. Tiveram de arremeter e voltar para a Nicarágua. Depois, Mel comprou um Jipe – estilo Land Rover – na Nicarágua. Andou 150km rumo a Honduras e dormiu num vilarejo acompanhado de seu séquito revolucionário. No dia seguinte, seguiu em direção à fronteira. A poucos metros dela, desceu do veículo e proferiu longo discurso em defesa da pátria e da democracia. Estava de pé em cima de um banco de madeira dentro de uma barraca de caldo de cana, na beira da estrada. Acompanhavam a imprensa e seus correligionários. Quando chegou ao seu país, deu dois passos e o esperavam Oficiais. Um liga para o outro, contatados os superiores, e optou-se pelo retorno do exilado à Nicarágua. O que ele fez com o jipe não sei dizer.

Presidente da Costa Rica eleito para dar cabo ao conflito, Oscar Árias não logra resultado. O embaixador americano que deu abrigo à esposa e filhos de Zelaya logo após o golpe também adotou a defesa da constitucionalidade. Fato curioso é que depois da nomeação do americano Mel não quis recebê-lo em protesto contra a política yankee na Bolívia que contrariava interesses do amigo bolivariano Evo Morales.

O mundo posicionou-se contra o Golpe.

Eis que Zelaya em condições suspeitíssimas aparece na embaixada brasileira. Sua mulher, na calada da noite, toca a campainha e pede para falar com o diplomata presente. Solicita guarida ao deposto. Assustado, Francisco Catunda liga para o Itamaraty, que assente ao pedido. Eis que num golpe de mágica e de mestre instala-se o caos na Embaixada que passa a abrigar trezentas pessoas, surgidas ninguém sabe de onde. Hugo Chávez admite participação na misteriosa volta e diz que emprestou novamente um avião que conduziu o herói da resistência a El Salvador. De lá, Zelaya entrou escondido, segundo Chávez, e com a ajuda de asseclas andou até dentro de porta-malas de um carro para chegar ao seu novo Bunker, a embaixada brasileira em Tegucigalpa.

Celso Amorim havia dito após a deposição que o golpe duraria três meses. Venceu o tempo e estamos numa situação inusitada. Os golpistas, depois de toques de recolher e algumas mortes, já enfrentam alguma resistência no Congresso – não me espantaria se ele fosse fechado. A população, já carente de comida e pobre de longa data, está insatisfeita com a situação. Os comerciantes e industriais também sinalizam pela resolução imediata do conflito. Os candidatos à eleição presidencial de novembro, que ocorreria junto ao plebiscito pretendido por Zelaya, querem garantir o pleito. O mundo todo defende a volta de Mel para que as eleições sejam reconhecidas. O governo golpista está numa sinuca de bico. Ou radicaliza de vez, fecha o Congresso e espera Zelaya se cansar da dura rotina no sofá da embaixada, ou negocia e o reconduz ao poder.

Quanto ao Lula, se é que não sabia das maquinações de Manuel Zelaya, deu sorte de tornar-se de chofre o defensor mundial da democracia. Não podemos mais aceitar quarteladas na América. Segundo artigo do Elio Gaspari de hoje, foram 300 no século passado, 12 só no Brasil – resultando em 29 anos de ditadura. E para quem acredita que hoje, com Internet, com todos os recursos tecnológicos que dispomos, Golpes de Estado são apenas possíveis em pequenos e pobres países como Honduras, basta rever os fatos ocorridos na Venezuela em 2002. Hugo Chávez foi deposto depois de uma belíssima orquestração que conduziu Pedro Carmona ao Poder. É fato que o pulha Chávez voltou três dias depois, mas se quiser assistir à dinâmica de um Golpe, está tudo no Youtube! Devemos apoiar ao máximo a desmoralização dos golpistas de Honduras a fim de extirpar o cancro das quarteladas na América Latina. Noves fora que para o ridículo não há limites, este BLOG está com El Loco Manuel Zelaya!



Escrito por Cambuinha às 12h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil


BRASIL, Sudeste, ITAJUBA, Homem



Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog