Blog do Cambuinha


Castigo

 

 

O ex-promotor Igor Ferreira da Silva entregou-se esta semana à polícia para responder à acusação de matar sua mulher grávida, há 8 anos. Não impressionou-me o crime em si e tampouco o fato do acusado ficar todo esse tempo foragido. Não sou do grupo de linchadores e arautos da justiça que se vê por aí. Atento para suas possíveis motivações para entregar-se.

Noticiou-se que o réu em fuga embrenhou-se na Argentina, Santa Catarina, interior de São Paulo e até mesmo morou próximo à casa de sua mãe na capital paulista por alguns meses. Inicialmente procurou locais mais desertos. De posse de um violão, apresentou-se em barzinhos. Em Taubaté trabalhou alguns anos de pintor de paredes. Chegou a confeccionar objetos de couro como bolsas e peças de decoração. Ultimamente trabalhava na tradução para o Português de um livro em Inglês sobre a filosófica peregrinação de um homem pelos confins da Ásia no início do século passado, segundo o jornal de hoje.

Nota-se que não é um sujeito qualquer. Com dom para artes, para trabalhos minuciosos que exigem concentração. Tradutor de livro de filosofia, bilíngüe. Dotado de capacidade adaptativa notável. Também azougado para enganar a polícia – não andava portando documentos, o que não é crime.

Um crime qualquer um de nós pode cometer. Aliás, a probabilidade não é tão baixa assim: basta perguntar aos seus amigos quantos deles já dirigiram bêbados.

Por que Igor se entregou? A família divergia da decisão. Alguns queriam que continuasse foragido. Outros concordavam na trégua com a Justiça. Estaria ele incomodado com a clandestinidade? Não estaria suportando a mediocridade da vida em que se meteu? Cansou-se dos serviços menores, de trabalhos manuais? Não acredito que tais motivações o fariam se submeter aos incautos linchadores e ao cárcere.

Como Dimitri Karamazov em “Os Irmãos Karamazov” – Fiódor Dostoiévski, livro que mudou muitos dos meus conceitos, o ex-promotor transformou-se de assassino em vítima. A morte da esposa grávida, fato tão ou mais grave que o parricídio atrubuído ao personagem russo, tornou-se seu verdugo. Deve atormentá-lo indefinidamente, como um auto-flagelo que dispensa desterros. Dimitri não matou o pai, o truão Fiódor Karamazov. Tinha todos os motivos para fazê-lo. Contudo levava uma vida mundana de golpes, bebidas e mulheres. Prezava apenas seu irmão Alíocha, um monge com quem se aconselhava. O seu julgamento é dos mais belos capítulos de literatura que já li, especialmente sua peça de defesa. É desterrado para a Sibéria e não obstante sua inocência, culpa-se pela desregrada e imoral vida que levava. Revela ao seu irmão Alíocha que talvez seja mesmo o seu destino, resignado, e que o transformaria em catarse.

Há de se repensar a reclusão para réus primários, exceto os comprovadamente psicopatas. A punição é eterna e dura. Independe do cárcere.

 



Escrito por Cambuinha às 00h36
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Ao ingenuamente refutar as manifestações comunistas em homenagem à Mercedes Sosa fui veementemente criticado por uma irascível e exigente amiga. Deve ter me achado ingênuo, para não dizer um pulha. Outrora já tinha me classificado de canastrão. Pois como desagravo publico este grande poema que traduz os meus sentimentos no zênite das paixões intempestivas, em homenagem a ela:

 

Ultimatum

Álvaro de Campos - 1917

 

“Mandado de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu reles esnobe plebeu

E fora tu, imperialista das sucatas

Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.

Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.

Monte de tijolos com pretensões a casa

Inútil luxo, megalomania triunfante

E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular

Que confundis tudo!

Vós anarquistas deveras sinceros

Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.

Sim, todos vós que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo

Passai, aristocratas de tanga de ouro,

Passai frouxos

Passai radicais do pouco!

Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas

Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.

Sufoco de ter só isso a minha volta.

Deixem-me respirar!

Abram todas as janelas

Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.

Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!

E o mundo quer a inteligência nova

O mundo tem sede de que se crie

O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.

O que aí está não pode durar porque não é nada.

Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!

Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.

Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico

e saudando abstratamente o infinito.”



Escrito por Cambuinha às 00h28
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