Blog do Cambuinha


Absurdos

 

Quando minha querida prima foi dar a luz, optou pelo parto normal. O marido é americano e lhe deu todo apoio na escolha, pois naquelas bandas a cirurgia cesárea é para exceções. Pensei comigo que o Brasil é mesmo subdesenvolvido, uma vez que mais de 80% dos nossos partos são cesáreos! Eu, que fui operado recentemente devido uma apendicite aguda, se fosse mulher não titubearia e escolheria o parto normal – se um cortinho de nada já doeu muito por 15 dias, imagine um corte bem maior e envolvendo um útero enorme! Sem contar que o parto normal oferece menores riscos de complicações para o nascituro e a mãe.

 

Assim, era de se esperar que os americanos também prezassem pela amamentação. Pois veja o depoimento da minha prima, que mora numa cidadezinha no interior dos EUA (Oklahoma) e agora iniciou suas atividades na Blogosfera: http://vvargass.zip.net/

(...)“Calculei que terminaria minhas compras em 30 minutos, voltaria pra casa e ainda teria tempo para guardar as coisas antes dele acordar faminto. Mas como nunca fui muito boa com relação à orientação de tempo e espaço, meus planos não deram certo. Demorei 1 hora para encontrar tudo o que precisava e ele acabou acordando. Eu tinha 2 opções: Encher a barriguinha dele de leite ali no mercado, ou deixar ele esperando 20 minutos até chegarmos em casa. Escolhi a primeira opção. Mas onde??? No carro não dava pois estava longe, eu não tinha passado pelo caixa ainda e aqui nos EUA não tem caixa preferencial para idosos, gestantes, deficientes e lactantes. Tinha um banco de madeira na entrada principal do mercado e tinha também o banheiro. Larguei meu carrinho pra trás e fui pro banheiro. O cheiro lá dentro estava insuportável. Sentei no vaso sanitário, daqueles sem tampa, e bastante desajeitada coloquei o meu bebê no peito. Cada vez que alguém dava descarga, meu bebê se assustava. Não aguentei ficar ali nem 1 minuto. Antes de eu sair do banheiro, pra minha surpresa, escutei um barulhinho familiar. Era um outro bebê mamando, também dentro de um dos cubículos! "Que absurdo!", pensei. Dirigi-me ao banco de madeira na entrada do mercado. Sentei, coloquei meu bebê pra mamar. Sem exagero, TODAS as pessoas que entraram e saíram por aquela porta olharam pra nós como se fôssemos coisa de outro mundo. Muitas delas fizeram cara feia, outras cochicharam, duas ou três sorriram pra mim. Eu tentei não olhar pra elas, fiquei olhando pra ele e esperei ele terminar. Depois de uma meia hora ele olhou pra mim, arrotou e sorriu.

Terminei minhas compras e fomos pra casa. Ele satisfeito e contente, eu aliviada por ter alimentado o meu bebê no momento certo. Mas fiquei muito indignada com a atitude das pessoas, afinal existe coisa mais bonita do que a maternidade? 

Que mundo estranho é esse em que estamos vivendo? Onde uma mãe não pode amamentar o seu bebê sem procupações?

Fatos: Aqui nos EUA o índice de aleitamento materno é muito baixo. Muitas mães já saem da maternidade dando fórmula aos bebês. Outras compram o "tira leite" automático no Wallmart, retiram o próprio leite e colocam na mamadeira. Tem até recipientes próprios para colocar o leite antes de ser congelado. Assim não precisam amamentar em público. Aonde fica a tão importante relação mãe-bebê nessa história toda?” (...)   

Polêmico também o fato de nos EUA não haver caixa preferencial para quem precisa.

 

Por que as pessoas não gostam de amamentar? Penso que a vaidade feminina – e mesmo masculina naqueles “mais heterodoxos” – transforma-se em patologia. Seria para o peito não cair? Teriam as mulheres vergonha de seus seios túrgidos? O que os americanos vêem de despudorado e séptico no ato de amamentar? O que há de errado na foto aí em cima? Pudicícia e vaidade patológicas.

 

Aqui no Brasil, dia desses pegou fogo numa favela em São Paulo. Enquanto uma mãe tentava salvar seus singelos apetrechos do barraco em chamas, a vizinha estava com o filho daquela o amamentando! Viu que a criança chorava e não teve dúvidas. Frente a uma câmera de TV que registrava tudo, tirou o seio para fora e a criança se satisfez. A repórter foi entrevistá-la e escutou palavras doces acompanhadas por um belo sorriso. Aquela criança agora era um pouco filha da pobre e macilenta “mãe-de-leite”.

 

Esquecemos que somos homo sapiens. Uma espécie que precisa de sexo, comida, urinar, evacuar, amamentar e reproduzir. Reprimimos o reflexo gastro-cólico (no café-da-manhã o estômago que se enche promove contrações colônicas que favorecem a evacuação) todos os dias, pois sempre estamos atrasados para o trabalho. Então compramos caixas de “Activia”. Não queremos filhos pois o que enobrece é o dinheiro e trabalho. Mulheres não amamentam pois peito é pra apontar ao norte e se encher de silicone.

 

Ora! Um sujeito pode ser o Bill Gates, tem milhões e milhões de dólares. Se não tiver filhos, biologicamente é um fracassado.

 

Ademais, perdoem-me por ser meio prolixo, as mulheres grávidas são as mais bonitas que se vê por aí. Talvez pela chuva inesgotável de hormônios femininos que circulam. Tornam-se muito mais atraentes.  

 

E viva a Biologia! Abaixo o capitalismo que quer transformar humanos em máquinas estéreis!



Escrito por Cambuinha às 15h09
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João e Maria

            João adora futebol, sua história e bastidores. Maria adora o colunismo social, o colunismo de celebridades. Cada um gosta de suas amenidades.

            João adora a política, a história, as polêmicas e as dissertações. Maria adora o Harry Poter, gosta de orações. Cada um com suas maquinações.

            João é minimalista, tem um violão e uma meia dúzia de livros. Maria adora móveis do momento, aquele sofá da propaganda, aquela loja dos ricos. Cada um com suas bugigangas.

            João adora os pijamas, ler os jornais quando chega do trabalho. Maria odeia João lendo, adora novelas e ir ao cinema – João só vai nas promoções. Cada um com suas distrações.

            João tem roupas puídas, de alto valor sentimental. Maria tem as da revista, últimos lançamentos. Cada um com seu orçamento.

            João trabalha pouco, sonha apenas com aquela casinha com o fusquinha na garagem. Maria sonha com seus castelos, príncipes e ovações. Cada um com suas construções.

            João adora um barzinho meio de esquerda, aquela cerveja gelada, papear num sambinha com feijoada. Maria adora os bailes, os donairosos vestidos e aquele restaurante francês, onde na vida só se vai uma vez. Cada um com seus amigos.

            Certa feita João conheceu Joana. Joana adora futebol, é minimalista, adora um violão, sabe tudo de jornais, de livros, é polemista nata, usa vestidinhos estampados singelos, não tem nem fusquinha, e a prosa deles rendeu num barzinho meio de esquerda, com a cerveja gelada e o sambinha animado. Os dois com únicos interesses. João animou-se muito, até demais, e não percebeu o principal de Joana: afinal era uma mulher, e uma bela mulher.

            Discorriam sobre as ditaduras sangrentas e sobre os políticos maquiavélicos, passando pelo time do coração. Ah! O Coração! Foi esse o erro de João! Esqueceu-se que nenhuma mulher, nem mesmo Joana, tolera as saudáveis convicções masculinas mundanas. Quis ingenuamente ilimitadas amizade e cumplicidade, como as daquele velho amigo da faculdade.

            Mas Joana era uma inflexível e pudenda mulher. Como todas. Ostentava a razão e no fundo era mais emoção. Como todas. E o ingênuo João, com aquela sua maquinação, ainda espantou-se com aquela súbita e sobeja desaprovação.

            Descobriu o João que Joanas na verdade não existem. Ele não deveria ser tão inconveniente. Mentir é sempre o caminho mais fácil. Afinal, verdades demais são muito contraproducentes.

            E segue João com Maria, feliz é certo, mas ainda sonhando encontrar alguma diletante Joana, cúmplice hedonista ilimitada. Pobre João. Será que descobrirá um dia que no fundo, no fundo, todas as Joanas são Marias?

 

Texto de Bartolomeu Cipriano.

 



Escrito por Cambuinha às 22h02
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